quinta-feira, 3 de novembro de 2011

REIDY e o Minhocão da Gávea


O Conjunto Habitacional Marquês de São Vicente, mais conhecido como Minhocão da Gávea, também foi projetado, na década de 50, pelo arquiteto e urbanosta Affonso Eduardo Reidy.

No início dos anos 40, a prefeitura extingue algumas favelas em bairros no Centro do Rio de Janeiro e constitui o “Parque Proletário” para abrigar seus moradores, com o compromisso de transferi-los para habitações definitivas num prazo de seis anos. O Conjunto Residencial Marquês de São Vicente é projetado para essa comunidade com cerca de cinco mil e duzentas pessoas, da qual setenta por cento é constituída por famílias de trabalhadores com profissão estável. Mais aí começaram as discussões políticas e o projeto foi atrasado e modificado.

Reidy não chegou a ver o complexo residencial realizado, mas deixou todo pronto. Bem maior do que o “Pedregulho”, efetivamente foi construído apenas o prédio sinuoso. Já o resto do conjunto residencial não saiu do papel.


O projeto original de Reidy previa a construção de 748 apartamentos, creche, escola primária e secundária, playground, mercado, lavanderia, posto de saúde, igreja, teatro, campos de esportes, administração e um departamento de serviço social. Só o bloco principal, as lavanderias e o posto de saúde efetivamente foram construídos. Não foram construídos os demais sete blocos. O campo de futebol e o ginásio usado como salão de festas foram doados por uma ex-vizinha, que morava no luxuoso condomínio ao lado.

Para quem não sabe, Reidy projetou, inclusive, a rua que ligaria o bairro da Lagoa ao da Barra. O equipamento, para a ligação viária Lagoa-Barra através de um túnel sob os Dois Irmãos, cuja construção já havia sido iniciada, também não foi concluído. Essa avenida cortaria o terreno do conjunto residencial com rebaixamento de pistas destinadas ao tráfego, que passaria em nível inferior ao da larga passagem de pedestres, e restabeleceria a ligação entre as duas partes do conjunto. O projeto previa absoluta separação entre as circulações de veículos e as de pedestres.



Segundo declaração da esposa de Reidy, dada à diretora do Filme "REIDY, a construção da utopia", Carmen Portinho lembra que Reidy já tinha morrido, eu já tinha me aposentado, e aí eles fizeram o que bem entenderam ou o que mais conveniente foi para todos os demais interessados. E resolveram cortar uma parte dos edifícios e passar um túnel por lá. Mas é gente de baixa renda, ninguém quer saber de atender. Aquilo foi um crime. A rua passava em outro lugar. A rua não atravessava o conjunto. Fizeram outras coisas lá. Largaram o prédio lá sozinho. O prédio deixou de pertencer a uma “unidade de habitação”. Quer dizer, estragaram tudo. E por fim, acabaram com o departamento. O Departamento de Habitação Popular deixou mais dois conjuntos construídos, e um projeto de Reidy para os habitantes desalojados da favela do morro das Catacumbas. As curvas de Reidy, inspiradas nos edifícios “auto-pistas” de Le Corbusier, reinventando o meio transtornado, promovendo o bem estar social, e integrando natureza, arquitetura e urbanismo, são a síntese do possível. Elas nos lembram que a habitação é fator determinante para o futuro das cidades..

O conjunto atualmente possui 308 apartamentos, cerca de 1500 moradores, seis porteiros e não possui elevadores. Nos primeiros andares ficam pequenos apartamentos com sala, banheiro e uma pia instalada que se passa por cozinha. Variam de 25m² a 30m². Os duplexs, instalados no quarto e no sexto andares, medem em torno de 45m².


Algumas declaração de moradores

"É um inferno, né? Não é barulho, é um inferno depois que passou esta auto-estrada aqui."

"São 24 horas de barulho. São 24 horas. No verão é uma coisa de louco. Ninguém pode assistir a televisão com as janelas abertas por causa do calor. Fora isso é a fumaça que vem. A gente limpa de manhã, de tarde ta sujo."

"É, eu não respiro a noite."


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