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quinta-feira, 27 de outubro de 2011
REIDY e o Palácio Gustavo Capanema
O Palácio Capanema é um dos primeiros exemplares da arquitetura moderna no Brasil. Foi construído em um momento durante o qual o Estado intentava passar uma sensação de modernidade ao país, o que se refletiu tanto no projeto do edifício quanto no contexto histórico em que se insere. A construção ocorreu entre 1936 e 1945 e o edifício foi entregue em 1947.
Inspirado e influenciado pelas idéias de Le Corbusier, o arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy faz parte da equipe de arquitetos que no fim da década de 1930 projeta o edifício-sede do recém-criado Ministério de Educação e da Cultura (edifício conhecido hoje como Palácio Gustavo Capanema). Aí trabalha sob a direção de Lúcio Costa, com a colaboração do próprio Corbusier.
A decisão de convidar o próprio Le Corbusier para trabalhar como consultor do projeto é parte de um acordo entre Lucio Costa e Capanema. O arquiteto franco-suíço chega então ao país, em 1936, para assessorar diretamente o plano do ministério e para elaborar o primeiro esboço da Cidade Universitária que se pretendia construir na Quinta da Boa Vista, mas que nunca saiu do papel.
O Palácio Capanema é conhecido também como o prédio do MEC, pois funcionou como sede do Ministério de Educação e Cultura. Na transferência da capital para a Brasília o nome mudou para Palácio da Cultura.O nome atual (desde 1985) é uma homenagem ao ministro que, na época, ordenou sua construção.
Construído numa área de 27.536 metros quadrados, o projeto procura seguir de modo bastante fiel as recomendações de Le Corbusier para o que ele considerava uma "nova arquitetura": seu bloco principal está suspenso sobre pilotis, possui a estrutura portante livre das paredes e divisórias internas, e está vedado por cortinas de vidro. Foi um dos primeiros edifícios, em todo o mundo, a fazer uso do recurso do brise-soleil (quebra-sol) a fim de evitar a incidência direta de radição solar em sua fachada norte.
A escolha dos materiais da construção foi também bastante arrojada: ferro e concreto, combinação de gnaisse e painéis de azulejos. Foram usados mármore de lioz, tijolo de vidro inglês misturado com mármore amarelo.
Possui amplo jardim externo e jardim suspenso, projetados por Roberto Burle Marx.
O revestimento externo é feito por azulejos de Cândido Portinari, há importantes peças de escultura de Celso Antônio na escada de Lipschitz, na parede externa do auditório e de Alfredo Ceschiatti nos jardins. Há também obras de Guignard e Pancetti.
O local abriga uma biblioteca, uma livraria, sala de espetáculos, auditórios, salão de exposições, arquivos digitais e sonoros e estruturas administrativas do Ministério da Cultura e de suas instituições vinculadas. Funcionam diversos órgãos – Funarte, Biblioteca Noronha Santos, as Representações dos Ministérios da Educação e da Cultura no Rio de Janeiro, dentre outros. Lá funcionou a primeira sede do Iphan, atualmente transferida para Brasília. Grande parte do acervo dessa instituição pioneira na América Latina, com mais de 70 anos, ainda se encontra no prédio.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
A síntese da obra de REIDY
A obra do Reidy, em síntese, pode-se dizer que foi não só uma obra de um arquiteto, mas também uma obra social. Ele procurava fazer uma coisa que servisse às necessidades sociais, utilizada pelo homem.
Veja algumas declarações sobre Reidy e seu legado
- LUCIO COSTA (arquiteto e urbanista)
Ele era o mais civilizado dos nossos arquitetos. Naturalmente. Aquela coisa natural, sem qualquer pretensão ou esforço. “Je suis comme je suis”, aquele negócio da canção. E uma pessoa de um caráter excepcional. Confiável, muito confiável.
Ele conseguiu botar esse movimento renovador que estava ocorrendo numa trilha de apuro arquitetônico, uma trilha elegante, digamos. De modo que eu acho que a presença dele neste momento foi fundamental.
- CARMEN PORTINHO (ex-esposa, arquiteta e urbanista)
Ele trouxe muita coisa prá arquitetura. Como também de fazer uma habitação popular, um parque pro povo, um museu, um edifício de pensões, a escola do Paraguai, um oferecimento do Brasil ao Paraguai.
Eu considero a arquitetura de um grande arquiteto que não tem até agora reconhecido no seu país o seu valor como arquiteto.
- PAULO MENDES DA ROCHA (arquiteto e urbanista)
Se há uma memória que convoca o plano afetivo da minha formação, é a memória do Reidy. Pelo trabalho dele, desde o tempo de estudante isso me acompanha como uma estrutura muito consistente no sentido de dizer o que é, do que se trata a arquitetura. E, entretanto, por felicidade suprema minha ainda pude conhecê-lo pessoalmente.
Certa vez, eu pus um projeto na Bienal de Artes de São Paulo e ganhei o grande prêmio Presidência da República com o Reidy no júri. E ele me telefonou depois, queria me conhecer. Eu fui ao Rio e estive com ele muito brevemente. Mas o trabalho dele tem uma importância na formação dos arquitetos, creio que do mundo inteiro, mas dos brasileiros sem dúvida muito forte. Esse parlatório nas cidades se transforma, se multiplica de modo tão gentil que você podia dizer um desses lugares é o bar.
O que seria da crônica do Rio de Janeiro sem os bares e os botequins?
O Reidy tem um trabalho, uma maneira de enfrentar a questão da arquitetura eminentemente demonstrativa da possibilidade de fazer aquilo que você pensa. Porque uma coisa interessante de considerar e que você pode logo remeter para a idéia de cidade é que existe antes que se faça. É um desejo.
Eu acho que o Reidy não é nada de utópico, ao contrário ele tem uma visão muito objetiva da possibilidade da técnica em relação à realização desses desejos.
Você podia dizer, por exemplo, que uma das virtudes que podia se ressaltar na obra do Reidy é a capacidade que tem o seu desenho de demonstrar claro, como quem demonstra para ensinar, e dizer faça você também e continue o êxito da técnica.
A cidade é uma grande casa. Do ponto de vista de uma visão, digamos feminina, é o único lugar que você pode imaginar o futuro dos filhos.
A cidade é muito maternal, eu tenho a impressão. Sem escolas, sem hospitais, sem creches, sem diversão, sem possibilidade de transmissão de conhecimento que a cidade promove...
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| Reidy com Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ao fundo |
Veja algumas declarações sobre Reidy e seu legado
- LUCIO COSTA (arquiteto e urbanista)
Ele era o mais civilizado dos nossos arquitetos. Naturalmente. Aquela coisa natural, sem qualquer pretensão ou esforço. “Je suis comme je suis”, aquele negócio da canção. E uma pessoa de um caráter excepcional. Confiável, muito confiável.
Ele conseguiu botar esse movimento renovador que estava ocorrendo numa trilha de apuro arquitetônico, uma trilha elegante, digamos. De modo que eu acho que a presença dele neste momento foi fundamental.
- CARMEN PORTINHO (ex-esposa, arquiteta e urbanista)
Ele trouxe muita coisa prá arquitetura. Como também de fazer uma habitação popular, um parque pro povo, um museu, um edifício de pensões, a escola do Paraguai, um oferecimento do Brasil ao Paraguai.
Eu considero a arquitetura de um grande arquiteto que não tem até agora reconhecido no seu país o seu valor como arquiteto.
- PAULO MENDES DA ROCHA (arquiteto e urbanista)
Se há uma memória que convoca o plano afetivo da minha formação, é a memória do Reidy. Pelo trabalho dele, desde o tempo de estudante isso me acompanha como uma estrutura muito consistente no sentido de dizer o que é, do que se trata a arquitetura. E, entretanto, por felicidade suprema minha ainda pude conhecê-lo pessoalmente.
Certa vez, eu pus um projeto na Bienal de Artes de São Paulo e ganhei o grande prêmio Presidência da República com o Reidy no júri. E ele me telefonou depois, queria me conhecer. Eu fui ao Rio e estive com ele muito brevemente. Mas o trabalho dele tem uma importância na formação dos arquitetos, creio que do mundo inteiro, mas dos brasileiros sem dúvida muito forte. Esse parlatório nas cidades se transforma, se multiplica de modo tão gentil que você podia dizer um desses lugares é o bar.
O que seria da crônica do Rio de Janeiro sem os bares e os botequins?
O Reidy tem um trabalho, uma maneira de enfrentar a questão da arquitetura eminentemente demonstrativa da possibilidade de fazer aquilo que você pensa. Porque uma coisa interessante de considerar e que você pode logo remeter para a idéia de cidade é que existe antes que se faça. É um desejo.
Eu acho que o Reidy não é nada de utópico, ao contrário ele tem uma visão muito objetiva da possibilidade da técnica em relação à realização desses desejos.
Você podia dizer, por exemplo, que uma das virtudes que podia se ressaltar na obra do Reidy é a capacidade que tem o seu desenho de demonstrar claro, como quem demonstra para ensinar, e dizer faça você também e continue o êxito da técnica.
A cidade é uma grande casa. Do ponto de vista de uma visão, digamos feminina, é o único lugar que você pode imaginar o futuro dos filhos.
A cidade é muito maternal, eu tenho a impressão. Sem escolas, sem hospitais, sem creches, sem diversão, sem possibilidade de transmissão de conhecimento que a cidade promove...
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
REIDY e o Complexo Habitacional PEDREGULHO
O Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, conhecido como PEDREGULHO, faz parte do conteúdo do filme “REIDY, a construção da utopia”, documentário de Ana Maria Magalhães, que conta a vida do arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy (1909-1964).
Projetado por REIDY, a partir de 1947, para abrigar funcionários públicos do então Distrito Federal, o Pedregulho está localizado no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, e compõe a face social da arquitetura de Reidy, ao lado da Unidade Residencial da Gávea (1952) e do Teatro Armando Gonzaga (1950), em Marechal Hermes.
O Pedregulho, elogiado por Max Bill (1908-1995), em 1953, e por Le Corbusier (1887-1965) em sua passagem pelo Brasil, em 1962, marca um momento de reconhecimento internacional das obras arquitetônicas e urbanísticas de Reidy.
A construção do complexo residencial projeta Reidy internacionalmente como um arquiteto capaz de criar soluções ambientais e espaciais, reflexivas e formais, com qualidade técnica e plástica, e sentido social.




O prêmio para o Conjunto Residencial do Pedregulho na 1ª Bienal de São Paulo em 1953 foi justificado pelo presidente do júri, Sigfried Giedion, como uma realização exemplar para o Brasil e uma audaciosa solução de habitação, onde já realizou uma obra social: “Essa solução de conjunto constitui um simples exemplo de como toda a cidade deveria ser formada. O júri lamenta que a obra fique isolada, surgindo entre bairros formados anarquicamente”.
Com seus volumes ritmicamente variados, espaços permeáveis e transparentes movimentando-se em fluxo contínuo, ao encontro de um novo conceito de habitação social, o Pedregulho é o testemunho de um país que prefigurava o futuro.
Apaixonado por seu trabalho, Reidy disse: “A função habitar não se resume na vida de dentro de casa. Estende-se em atividades externas, compreendendo serviços e instalações complementares que proporcionam ao habitante as facilidades necessárias à vida de todo o dia.
Nós tínhamos que começar fazendo apenas para os funcionários da prefeitura, que moravam às vezes a quilômetros e quilômetros de distância do trabalho, quando um dos conceitos do Le Corbusier e que nós pretendíamos seguir, era trabalho próximo à habitação. E com isso resolvia indiretamente o problema do transporte.
Então, nós trabalhávamos com duas, três assistentes sociais, que visitavam os operários, os funcionários de baixa renda daquele bairro. De modo que não tinha essa história de “pistolão”, que vinha um parlamentar um pistolão querer botar no Pedregulho pra morar um sujeito que trabalhava em Bangu, porque isso fugia ao nosso critério.
O Bloco “A” com 260 metros de extensão contém 272 apartamentos de diferentes tipos. A solução duplex foi adotada por oferecer maior rendimento, pela possibilidade de atingir sem elevador os quatro pavimentos, sendo o acesso ao último andar feito do interior do apartamento.
Os blocos “B1” e “B2” têm 80 metros de extensão, com duas ordens de apartamentos duplex, contendo 56 unidades de 2, 3 e 4 dormitórios. O quarto bloco de habitação não chegou a ser construído.”
Diante da má administração e posterior degradação do Pedregulho, Lucio Costa comentou: “Contribuiu de fato, mas era uma coisa que visava mais longe. E isso aí o ambiente não ajudou. O Brasil negativo sempre interfere nas iniciativas inovadoras.”
Carmen Portinho, esposa de Reidy, conta que “os prédios eram sobre ´pilotis´, porque embaixo dos ´pilotis´ podia servir não só para recreio em dias de chuva, com estacionamento perto. Mas não podia dentro daquela área circular carro. Porque a escola é considerada como o centro em torno do qual gira toda aquela população. Porque a mãe quando manda seu filho à escola tem que ter a escola perto da sua habitação. Isso é um princípio indispensável, evita o transporte da criança, evita o deslocamento dos pais. E uma piscina, que naquele tempo causou escândalo. Uma piscina na escola. E o centro do terreno onde se fazia o local de brinquedo das crianças. E a mãe ficava despreocupada, porque da própria janela onde ela estava, ela estava vendo o seu filho ou ir para a escola, ou ir brincar no playground.”
Carmen Portinho (1903-2001)
Engenheira e militante feminista, nasceu em Corumbá (MT), em 26 de janeiro de 1903, mudando-se muito cedo para o Rio de Janeiro. Militou entusiasticamente nas décadas de 1920 e 1930 em prol da conquista feminina e do reconhecimento profissional das mulheres. Em 1937, ajudou a criar a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA) e foi sua primeira presidente. Na ocasião, esta era a única entidade profissional de classe composta exclusivamente por mulheres. Ainda na década de 1930, Carmen fez o primeiro curso de urbanismo do país. Poucos anos depois recebeu uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar junto às comissões de reconstrução e remodelação das cidades inglesas destruídas pela guerra. Chegou à Inglaterra com a guerra ainda em curso, sentindo os gravers problemas de falta de moradia, e acompanhou de perto as propostas e o esforço para sua solução. Voltando ao Rio de Janeiro, propôs e construiu, na década de 1950, o conjunto residencial Pedregulho, no bairro de São Cristóvão. Faleceu no Rio de Janeiro em 2001.
Veja um pequeno trailer (destaque para o Pedregulho) do filme "REIDY, a construção da utopia", em cartaz em grande circuito a partir de 11 de novembro de 2011.
Apensar de atualmente o Pedregulho não estar bem conservado e vários de seus serviços não funcionarem mais, algumas moradores quiseram dar declarações à diretora do filme “REIDY, a construção da utopia”, Ana Maria Magalhães:
“Bom, eu vim morar aqui porque eu fiz uma pesquisa com o objetivo de fazer um projeto de restauração.”
“Localizado num lugar que você pode ir pra qualquer outro lugar que tem condução aqui em baixo.”
“Ah, isso aqui é muito bom. Um lugar muito tranqüilo para criar criança. Não precisamos prendê-los dentro de casa. Aqui eles soltam pipa. Aqui eles têm uma infância de fato.”
“Esse conjunto tem a característica de ter tido um carinho no projeto dos apartamentos. Você vê carinho quando você vê aqueles detalhes que eu te falei. Os detalhes mostram que houve um empenho, um empenho de que quem morasse aqui iria morar bem.”
“Então, nós tivemos uma infância maravilhosa. E nós tínhamos no início duas moças que visitavam as casas da gente, os apartamentos. Saber se precisava de alguma coisa, olhar as crianças, se as portas estavam abertas: ´Mantenha suas portas fechadas´. Mas eu nunca mantive a minha fechada, não.”
“Mas é uma obra muito boa. Veja bem, uma obra de cinqüenta e tantos anos ainda está como está! É original isso tudo ai. Tô dizendo, cinqüenta e tantos anos e ainda tem coisa moderna aqui. Foi um projeto talvez único.”
“E se alguém algum dia for perguntado o que você pensa da habitação social, talvez carregar um pouco deste exemplo daqui. Eles quiseram fazer o melhor. Mas foi um melhor muito adiantado pra época, sabe?”
“Foi quando a utopia e a realidade se encontraram, em um dado momento.”
“Porque nos tínhamos muito mais conforto aqui. Tínhamos lavanderia, posto de saúde. Tínhamos mercado, padaria... Eu aprendi a nadar ali. O ambulatório servia pra coisas de emergência, digamos, operações rápidas de amídalas.”
“Não é só construir um prédio, realmente é o conceito de bem estar social, das pessoas morarem e gostarem de onde moram.”
“Ao mesmo tempo você vê que os moradores estão tentando, de alguma forma, fazer com que o conjunto renasça. Eu só queria que alguém olhasse por isso aqui, mas mesmo assim continua bom.”
Canção PEDRO DO PEDREGULHO (Geraldo Pereira)
Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho
Quebrando boteco, fazendo barulho
Até com a própria polícia brigou
Vivia do jogo e quando perdia só mesmo muamba
Rasgava pandeiro, acabava com o samba
Parece mentira, Pedro endireitou.
Estelinha, orgulho do morro, mulher disputada
Que quando ia ao samba saía pancada
Ao Pedro dos Santos deu seu grande amor
E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho
Por uma marmita
E sobe o Pedregulho
De noite, cansado do seu batedor.





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| Complexo Habitacional Pedregulho |
O Pedregulho, elogiado por Max Bill (1908-1995), em 1953, e por Le Corbusier (1887-1965) em sua passagem pelo Brasil, em 1962, marca um momento de reconhecimento internacional das obras arquitetônicas e urbanísticas de Reidy.
A construção do complexo residencial projeta Reidy internacionalmente como um arquiteto capaz de criar soluções ambientais e espaciais, reflexivas e formais, com qualidade técnica e plástica, e sentido social.




O prêmio para o Conjunto Residencial do Pedregulho na 1ª Bienal de São Paulo em 1953 foi justificado pelo presidente do júri, Sigfried Giedion, como uma realização exemplar para o Brasil e uma audaciosa solução de habitação, onde já realizou uma obra social: “Essa solução de conjunto constitui um simples exemplo de como toda a cidade deveria ser formada. O júri lamenta que a obra fique isolada, surgindo entre bairros formados anarquicamente”.
Com seus volumes ritmicamente variados, espaços permeáveis e transparentes movimentando-se em fluxo contínuo, ao encontro de um novo conceito de habitação social, o Pedregulho é o testemunho de um país que prefigurava o futuro.
Apaixonado por seu trabalho, Reidy disse: “A função habitar não se resume na vida de dentro de casa. Estende-se em atividades externas, compreendendo serviços e instalações complementares que proporcionam ao habitante as facilidades necessárias à vida de todo o dia.
Nós tínhamos que começar fazendo apenas para os funcionários da prefeitura, que moravam às vezes a quilômetros e quilômetros de distância do trabalho, quando um dos conceitos do Le Corbusier e que nós pretendíamos seguir, era trabalho próximo à habitação. E com isso resolvia indiretamente o problema do transporte.
Então, nós trabalhávamos com duas, três assistentes sociais, que visitavam os operários, os funcionários de baixa renda daquele bairro. De modo que não tinha essa história de “pistolão”, que vinha um parlamentar um pistolão querer botar no Pedregulho pra morar um sujeito que trabalhava em Bangu, porque isso fugia ao nosso critério.
O Bloco “A” com 260 metros de extensão contém 272 apartamentos de diferentes tipos. A solução duplex foi adotada por oferecer maior rendimento, pela possibilidade de atingir sem elevador os quatro pavimentos, sendo o acesso ao último andar feito do interior do apartamento.
Os blocos “B1” e “B2” têm 80 metros de extensão, com duas ordens de apartamentos duplex, contendo 56 unidades de 2, 3 e 4 dormitórios. O quarto bloco de habitação não chegou a ser construído.”
Diante da má administração e posterior degradação do Pedregulho, Lucio Costa comentou: “Contribuiu de fato, mas era uma coisa que visava mais longe. E isso aí o ambiente não ajudou. O Brasil negativo sempre interfere nas iniciativas inovadoras.”
Carmen Portinho, esposa de Reidy, conta que “os prédios eram sobre ´pilotis´, porque embaixo dos ´pilotis´ podia servir não só para recreio em dias de chuva, com estacionamento perto. Mas não podia dentro daquela área circular carro. Porque a escola é considerada como o centro em torno do qual gira toda aquela população. Porque a mãe quando manda seu filho à escola tem que ter a escola perto da sua habitação. Isso é um princípio indispensável, evita o transporte da criança, evita o deslocamento dos pais. E uma piscina, que naquele tempo causou escândalo. Uma piscina na escola. E o centro do terreno onde se fazia o local de brinquedo das crianças. E a mãe ficava despreocupada, porque da própria janela onde ela estava, ela estava vendo o seu filho ou ir para a escola, ou ir brincar no playground.”
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| foto álbum de família |
Engenheira e militante feminista, nasceu em Corumbá (MT), em 26 de janeiro de 1903, mudando-se muito cedo para o Rio de Janeiro. Militou entusiasticamente nas décadas de 1920 e 1930 em prol da conquista feminina e do reconhecimento profissional das mulheres. Em 1937, ajudou a criar a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA) e foi sua primeira presidente. Na ocasião, esta era a única entidade profissional de classe composta exclusivamente por mulheres. Ainda na década de 1930, Carmen fez o primeiro curso de urbanismo do país. Poucos anos depois recebeu uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar junto às comissões de reconstrução e remodelação das cidades inglesas destruídas pela guerra. Chegou à Inglaterra com a guerra ainda em curso, sentindo os gravers problemas de falta de moradia, e acompanhou de perto as propostas e o esforço para sua solução. Voltando ao Rio de Janeiro, propôs e construiu, na década de 1950, o conjunto residencial Pedregulho, no bairro de São Cristóvão. Faleceu no Rio de Janeiro em 2001.
Veja um pequeno trailer (destaque para o Pedregulho) do filme "REIDY, a construção da utopia", em cartaz em grande circuito a partir de 11 de novembro de 2011.
Apensar de atualmente o Pedregulho não estar bem conservado e vários de seus serviços não funcionarem mais, algumas moradores quiseram dar declarações à diretora do filme “REIDY, a construção da utopia”, Ana Maria Magalhães:
“Bom, eu vim morar aqui porque eu fiz uma pesquisa com o objetivo de fazer um projeto de restauração.”
“Localizado num lugar que você pode ir pra qualquer outro lugar que tem condução aqui em baixo.”
“Ah, isso aqui é muito bom. Um lugar muito tranqüilo para criar criança. Não precisamos prendê-los dentro de casa. Aqui eles soltam pipa. Aqui eles têm uma infância de fato.”
“Esse conjunto tem a característica de ter tido um carinho no projeto dos apartamentos. Você vê carinho quando você vê aqueles detalhes que eu te falei. Os detalhes mostram que houve um empenho, um empenho de que quem morasse aqui iria morar bem.”
“Então, nós tivemos uma infância maravilhosa. E nós tínhamos no início duas moças que visitavam as casas da gente, os apartamentos. Saber se precisava de alguma coisa, olhar as crianças, se as portas estavam abertas: ´Mantenha suas portas fechadas´. Mas eu nunca mantive a minha fechada, não.”
“Mas é uma obra muito boa. Veja bem, uma obra de cinqüenta e tantos anos ainda está como está! É original isso tudo ai. Tô dizendo, cinqüenta e tantos anos e ainda tem coisa moderna aqui. Foi um projeto talvez único.”
“E se alguém algum dia for perguntado o que você pensa da habitação social, talvez carregar um pouco deste exemplo daqui. Eles quiseram fazer o melhor. Mas foi um melhor muito adiantado pra época, sabe?”
“Foi quando a utopia e a realidade se encontraram, em um dado momento.”
“Porque nos tínhamos muito mais conforto aqui. Tínhamos lavanderia, posto de saúde. Tínhamos mercado, padaria... Eu aprendi a nadar ali. O ambulatório servia pra coisas de emergência, digamos, operações rápidas de amídalas.”
“Não é só construir um prédio, realmente é o conceito de bem estar social, das pessoas morarem e gostarem de onde moram.”
“Ao mesmo tempo você vê que os moradores estão tentando, de alguma forma, fazer com que o conjunto renasça. Eu só queria que alguém olhasse por isso aqui, mas mesmo assim continua bom.”
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| painel de Portinari |
Canção PEDRO DO PEDREGULHO (Geraldo Pereira)
Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho
Quebrando boteco, fazendo barulho
Até com a própria polícia brigou
Vivia do jogo e quando perdia só mesmo muamba
Rasgava pandeiro, acabava com o samba
Parece mentira, Pedro endireitou.
Estelinha, orgulho do morro, mulher disputada
Que quando ia ao samba saía pancada
Ao Pedro dos Santos deu seu grande amor
E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho
Por uma marmita
E sobe o Pedregulho
De noite, cansado do seu batedor.
IMAGENS DO PEDREGULHO QUE FORAM RETIRADAS DO FILME





sexta-feira, 21 de outubro de 2011
REIDY e a arquitetura
Para Reidy a riqueza da flora, a dramaticidade da paisagem, a força do sol, a cor do céu e o próprio temperamento do povo se refletem na arquitetura carioca, e talvez sejam responsáveis por uma certa exuberância formal.
Em seu caminho de síntese entre a arquitetura moderna européia, as tradições construtivas e urbanas locais e os problemas do país, Reidy parte da reflexão sobre o projeto e sua execução, do contato físico com os materiais, da experiência real, e ao longo de um processo de auto-conhecimento, se constitui como arquiteto e como pessoa.
Mesmo trabalhando quase exclusivamente para o poder público, Reidy não se burocratizou ou se oficializou. Talvez por isso os projetos concretizados tenham sido poucos, mas sua produção foi tão contundente, variada e socialmente relevante que o colocou entre os mais importantes arquitetos brasileiros de todos os tempos.
Affonso Eduardo Reidy exerceu atividade entre a Revolução de 30 e o golpe militar de 64, período em que a arquitetura brasileira contribuiu para o projeto de desenvolvimento nacional conciliando a industrialização e a modernização do país com a preocupação social e a ampliação do acesso à educação e à cultura.
Em seu caminho de síntese entre a arquitetura moderna européia, as tradições construtivas e urbanas locais e os problemas do país, Reidy parte da reflexão sobre o projeto e sua execução, do contato físico com os materiais, da experiência real, e ao longo de um processo de auto-conhecimento, se constitui como arquiteto e como pessoa.
Mesmo trabalhando quase exclusivamente para o poder público, Reidy não se burocratizou ou se oficializou. Talvez por isso os projetos concretizados tenham sido poucos, mas sua produção foi tão contundente, variada e socialmente relevante que o colocou entre os mais importantes arquitetos brasileiros de todos os tempos.
Affonso Eduardo Reidy exerceu atividade entre a Revolução de 30 e o golpe militar de 64, período em que a arquitetura brasileira contribuiu para o projeto de desenvolvimento nacional conciliando a industrialização e a modernização do país com a preocupação social e a ampliação do acesso à educação e à cultura.
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| REIDY trabalhando em seu ateliê |
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